"A minha intimidade? Ela é a máquina de escrever. " Clarice Lispector

"A minha intimidade? Ela é a máquina de escrever. " Clarice Lispector

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Redesenho

Pobres rascunhos de vida
esquecidos numa gaveta qualquer
que insistem em avisar 
que a potência não pode acabar
no extremo de nenhum lugar.

Pobres rascunhos de vida
com cores tão vibrantes e festivas
que insistem em carnavalizar.
Se não há liberdade e invenção,
O coração se esvaziará...

Pobres rascunhos de vida
quando têm medo da juventude,
da Diversidade e do Desejo
E seguem em vida tolhida
Num destino trôpego, amiúde.

Traz à tona os papéis
tão livres, tão essenciais.
As tintas, os pincéis
os poemas, o sabor
a beleza, o redesenho.

Só assim...




quinta-feira, 9 de novembro de 2017

1995

Desconfio
que de vez em quando
é necessário
pertencer a este vazio...
Aos tons mais agudos do piano
À melancolia da noite fria
Ao silêncio
À fantasia

Acho que sou sim cristã
em demasia.

Sem cruz na parede
Mas com cultivo de alguma
resignação.
algumas lágrimas
alguns segredos
Todos muito solenes
Todos muito pátrios
Todos muito presentes
e alguma lembrança, sim
das paredes.

Às vezes eu preciso me lavar por inteiro
As vezes preciso chorar feito mãe quando recebe a notícia do filho...

Eu, desenharia tudo de novo.
A escola, as crianças, os livros
Eu viveria como vivi
Tenho muitas memórias que já esqueci.
Mas eu tenho tudo muito guardado.
Num baú
Num espelho
Num aconchego.
O velho espaço minúsculo no quarto
O amor tão maiúsculo, tão vasto
As palavras ralé
Porque jamais
As palavras não dizem
As palavras viram poeira
Não há palavra!
Não saberiam girar como bailarina
Não saberiam deslizar a tinta no quadro
Não saberiam se aplicar ao que se sente
Nu e crú.
Ao amor
À perda
Às lembranças
À infância
Ao amor.

(Raquel Amarante)



Algum piano pra acompanhar:




quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Sobre a morte e a Vida

Deve haver
algum trunfo
ao morrer.
Mas eu não quero
que estas palavras
tenham poder.
Deve haver
uma cor diferente
que eu me recuso
a enxergar.
Preferimos
o conforto
de onde a gente tá,
e o amor!
Ah, o amor...
O amor (re)ssuscita!
O amor é o que nos faz vivos!

(Raquel Amarante)



sábado, 21 de outubro de 2017

Algum crepúsculo



Saudades daquela mulher
que em mim existia.
Um pouco mais vulnerável
Um pouco mais envolvente
Um pouco mais fantasiosa
Um pouco mais apreensiva
Uma mulher repleta.

Primavera inteira de dúvidas

Saudades daquela mulher
que em mim existia.
Um pouco mais competitiva
Um pouco mais insegura
Um pouco mais relax
Um pouco mais alheia
Uma mulher pela metade.

Morava nela mesma

Do ventre daquela mulher
o enigma
Na varanda ela acompanha
algum crepúsculo.

(Raquel Amarante)






sábado, 14 de outubro de 2017

Vida agreste

torrões, glebas, açudes
solo calcário.
eu planto
eu rego
eu colho
sementes rudes
água pouca
sol extraordinário.

eu fui construindo de argila
a esperança
viver, sempre me fui sozinha
sem ter ajuda.
mais vale a fé em Deus
que em galho seco
a luta de quem não cansa
tem valentia
que acende a vela de noite
que mantém ela acesa de dia.

(raquel amarante)



quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Astrologia

Eu não sei quantas vezes li a mesma coisa sobre "o mesmo" aspecto do céu,
ou quantas vezes me reconheci à porta do destino, tão perto, tão íntima, tão acolhedora feito casinha de interior.
Eu não sei quantas vezes vivi a palidez de quem percebeu que a morte chegou, tão nítida, tão jovem, tão certeira! Sempre à beira...
Eu não sei quantas vezes meditei aquele plutão tão complexo feito neurose obsessiva, obsessiva, obsessiva...
Eu não sei quantas vezes compreendi e ao mesmo tempo hesitei em crer no que li, e tão incrédula, e tão perplexa, e tão resignada, e tão...
Eu não sei quantas vezes pedi para a lua voltar duas ou mais casas, ou pra ficar mais um pouquinho, só mais um pouquinho, por favor!
Ah! Quantas e quantas vezes a um passo de atropelar o universo na expressão intensa canceriana com passionalidade obtusa e fervente de escorpião - segurei a bola por causa daquele transitozinho pedindo vá com calma, refrigério sim da alma!
Eu não sei ao certo o que as pessoas desejam quando me procuram para dar uma olhadinha no mapa delas, mas imagino que se a Astrologia trata de signos, talvez, seja isso.
de signo se espera significações, sinais, e como precisamos brevemente de sinalização quando tudo parece meio sei lá, desbaratinado, ou meio turvo, meio incerto, meio estressante, meio enigmático.
Enigma... Todo mapa astral não é um enigma qualquer... É difícil não se encantar por todos aqueles símbolos que nada dizem para quem prefere silencia-los, mas que sim, arrebatam aqueles que desconfiam de muita coisa...
Desconfiam até o último segundo, mas esbarram numa incontestável relação de Sentido!

(Raquel Amarante)







quarta-feira, 28 de junho de 2017

Casa 8

pobre sol
na casa 8.
mergulha tão profundo
com ímpeto e violência
paixão e veneno
faz qualquer mundo ficar pequeno
amplia as dimensões obscuras
críticas, mórbidas, lúgubres.
sem medo de alturas
mergulha uma duas três
vezes
 no abismo
destroi o que ama
ama o que destroi
sopra
acende
apaga
vai embora
reclama
não ama
não pode amar.
desvia o olhar
e habita a tranquilidade de uma fantasia
de uma outra casa
supostamente.
casa oito só sente.
muito.
casa oito é oito oitenta.
onde impera casa oito
não há, não é possível existir 
o outro.

(raquel amarante)






quarta-feira, 21 de junho de 2017

Parceiro-Sintoma

Não convida pra dançar
Faz dançar com ou sem vida.

(Raquel Amarante)

P.S: Não serviu pra ser haicai :(


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